Cresci num lar cristão e aprendi sobre a importância de se manter um período devocional diário com Deus. Tanto por preceitos, como pelo exemplo de meus pais, soube desde criança que devemos cultivar este tempo à parte com o Senhor.

Há algo poderoso por trás desta prática, como estaremos analisando. Mas, preciso admitir que mesmo aprendendo que todo cristão deva ter seu período devocional com Deus, falhei centenas e centenas de vezes no que diz respeito a isto.

Falhei em períodos em que não estive tão intensamente envolvido com Deus e Seu Reino, falhei também depois de estar bem comprometido com o Senhor e ministerialmente amadurecido.

Portanto, quero iniciar nossa reflexão declarando que nem sempre erramos por falta de conhecer determinados princípios bíblicos, mas muitas vezes por mera falta de disciplina.

Sei que a maioria dos crentes de hoje não costuma investir diariamente num período de devoção com Deus. Muitos cometem este erro por falta de ensino e esclarecimento, outros por falta de cobrança e estímulo e, claro, há ainda aqueles que erram por pura negligência.

Não quero me dirigir a um ou outro grupo em separado, mas aos três. Aos que conhecem a base bíblica deste princípio, convido-os a reverem aquilo que um dia aprenderam e dedicar-se à prática.

Aos que estão recebendo este ensino pela primeira vez, apelo para que absorvam estes princípios e passem a vivê-los.

Quanto aos deliberadamente negligentes, espero que se arrependam e também ordenem seus passos nesta área.

Precisamos compreender o valor e resultados provenientes do devocional diário.

Então seremos estimulados a trazê-lo para a experiência diária. E ao fazê-lo, entraremos numa dimensão mais profunda de intimidade com o Senhor.

Deus espera que o busquemos todos os dias. Isto parece ficar bem claro na oração-modelo que Jesus nos ensinou: “…o pão nosso de cada dia nos dá hoje…” (Mt 6.11).

Jesus ensinou a nos colocarmos diariamente diante do Pai Celeste e buscar Sua provisão para aquele dia. E quanto ao dia seguinte?

Devemos voltar a buscar ao Senhor a cada novo dia. Cristo declarou:

“Portanto não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal.” (Mt 6.34).

Mesmo sendo ensinados a depender de Deus para nossa provisão, o que percebemos é que o caminho bíblico proposto é ir a Ele em oração diariamente.

E que as respostas divinas vêm em cotas “diárias”, não mais do que isto. Há uma relação entre este ensino do Senhor Jesus e o que ocorreu nos dias de Moisés quanto ao maná, o pão do céu.

Depois que a nação de Israel deixou o Egito, e saiu pelo deserto, em direção à Canaã, viu-se em dificuldades para ter seu próprio alimento, uma vez que, em viagem, não tinham tempo nem condições para plantar e colher.

E começaram a murmurar contra Deus e contra Moisés. E o relato bíblico nos revela o que aconteceu:

“Então o Senhor disse a Moisés: eis que vos farei chover do céu pão, e o povo sairá, e colherá diariamente a porção para cada dia, para que eu ponha à prova se anda na minha lei ou não”. (Êxodo 16.4)

A cada novo dia os israelitas tinham que se levantar em busca do pão. Deus queria que fosse exatamente assim.

“Disse-lhes Moisés: Ninguém deixe dele para a manhã seguinte. Eles, porém, não deram ouvidos a Moisés, e alguns deixaram do maná para o dia seguinte; porém deu bichos e cheirava mal. E Moisés se indignou contra eles. Colhiam-no, pois, manhã após manhã, cada um quanto podia comer; porque, em vindo o calor, se derretia”. (Êxodo 16.19-21)

O que temos aqui não é só uma lição de dependência, mas os parâmetros divinos para a forma de Seu povo se relacionar com Ele!

Parece-nos que era justamente isto que acontecia no Jardim do Éden, onde Deus visitava Seus filhos na viração do dia (Gn 3.8).

O plano de Deus para nosso relacionamento com Ele envolve a busca diária. Mas temos uma inclinação a errar justamente aí.

É só observar o que ocorreu com os israelitas no deserto: mesmo sendo advertidos para não colher mais do que a porção diária do maná, alguns deles tentaram fazê-lo. Porquê?

Por puro comodismo, para não precisar levantar cedo e ter o mesmo trabalho no dia seguinte, uma vez que quando o sol se levantava, o maná derretia.

A humanidade vive procurando atalhos para todas as coisas. Como diminuir o serviço e tornar tudo mais cômodo parece ser uma das áreas em que mais vemos progresso e avanços tecnológicos!

A ideia é simplificar tudo o que for possível. As crianças de hoje só usam fraldas descartáveis; temos o freezer e o microondas; a embalagem longa vida; o telefone celular, e uma infinidade de outras coisas que foram inventadas em nome da praticidade.

E não estou reclamando. Eu, como a maioria, gosto disto. Mas temos transportado esta ideia para o nosso relacionamento com Deus. Isto ocorre desde o início da humanidade.

Os israelitas demonstraram estar dentro deste mesmo tipo de pensamento quando acharam que poderiam “driblar” a regra da busca diária. E nós também continuamos presos à mesma forma de pensar, milhares de anos depois.

Não há meios de se trabalhar com estoque, no que diz respeito à presença de Deus. Devemos buscá-Lo a cada novo dia. O que experimentamos Dele num dia, não servirá para o dia seguinte. Este princípio aparece muito na simbologia bíblica.

Através do profeta Jeremias o Senhor repreendeu Seu povo por não praticar um princípio essencial no relacionamento com Ele: o de reconhecê-Lo como manancial de águas vivas.

Manancial ou cisterna?

“Porque dois males cometeu o meu povo: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas”. (Jeremias 2.13)

Naqueles dias não havia água encanada, e o povo dependia dos mananciais para sua sobrevivência. Entretanto, tanto pela falta do manancial como pelo comodismo de não precisar buscar água todos os dias, as pessoas passaram a usar cisternas.

A cisterna era um reservatório de água de chuva, e era muito prática, uma vez que evitava o trabalho de se ir diariamente atrás de uma fonte.

Temos muitos exemplos bíblicos de pessoas indo aos poços para buscar água. Isto era algo comum a todos, razão pela qual Deus escolhe justamente esta figura para ilustrar a verdade espiritual que o Seu povo necessitava ouvir e entender.

Qualquer um sabe que há uma diferença na qualidade da água proveniente da fonte e do poço. Mas o que Deus está dizendo não é algo ligado à qualidade da água, mas ao fato de que, espiritualmente falando, as cisternas não funcionam.

Deus chamou as cisternas que Seu povo vinha cavando de rotas, que não podiam reter as águas.

Portanto, nesta comparação que o Senhor faz, a conclusão é única: quem bebe da fonte tem a água, enquanto que quem tenta a cisterna acaba ficando sem água!

Muitos de nós achamos que é possível “driblar” o princípio da busca diária e tentamos “encher nosso reservatório” nos cultos.

Há pessoas que durante toda a semana não oram e nem leem a Bíblia, mas acham que um culto é suficiente para mantê-las abastecidas. Era disto que Deus falava.

Porque preferimos encher nossa cisterna em vez de ir diariamente à fonte? Talvez por mero comodismo, mas o fato é que temos falhado numa área vital de nosso relacionamento com o Pai Celeste.

Ninguém sobrevive de estoque em sua vida espiritual. Não existe uma espécie de “crente-camelo” que enche o tanque e agüenta quarenta dias no deserto!

Creio que esta é uma área importantíssima a ser ordenada em nossas vidas. Não há nada que nos leve a estar mais próximos de Deus do que o relacionamento diário.

Esta ideia de beber da fonte é usada por Deus em toda a Bíblia. E  penso que isto serve para cultivar em nós uma mentalidade correta de nosso relacionamento com Ele.

Leia e medite nos seguintes textos:

João 4.10,13,14; João 7.37,38; Apocalipse 7.11; Apocalipse 22.17

Pr. Luciano Subirá

Na próxima quarta, publicaremos a segunda parte deste estudo!